Eu ando pelas calçadas
Espero para atravessar na faixa,
Agradeço ao motorista que parou
E continuo minha lenta caminhada pelas ruas pouco iluminadas da cidade
Cumprimentar, sorrir, ajudar.
O eu físico não pode ultrapassar suas limitações, por isso faço dessa tela um refúgio para que o meu eu lírico transcenda através de toda desgraça do cotidiano
E aqui, por meio disso, eu posso finamente dizer a todos que não existe justiça, que nunca irá existir paz, que tudo o que é hoje amanhã não será mais, os bandidos vão continuar ficando ricos, os pobres vão continuar pobres, e as pessoas inocentes irão continuar sendo mortas pelo câncer e pelos acidentes de carro.
Porque a vida, é como um trem que saiu dos trilhos e desce desgovernado por uma montanha rochosa e você é apenas o filho da puta do motorista que por algum motivo não para de se olhar no espelho do retrovisor e dizer para os passageiros que vai ficar tudo bem, que tudo é uma fase.
E quando eles não estão vendo você bebe e chora no volante, provocando mais batidas e ferindo todo mundo lá atrás.
E quando o trem vira de cabeça para baixo e todos os estilhaços de vidro voam na sua cara você percebe o quanto era bom na época em que todos estavam em pé
E quando o trem começa a pegar fogo e todo mundo resolve pular pelas janelas, e todos começam a te culpar por ser um péssimo motorista você sente falta de quando o trem estava apenas capotando ladeira a baixo
E então as pessoas que pularam quebram todos os ossos e são atropeladas por outros malditos trens que também estão caindo e elas começam a sentir falta da porra do trem.
E o eu lírico se despede lá em baixo no fim da montanha na melhor representação possível do seu eu físico.
No outro lado da rua, um jovem me agradece por ter
Parado.