Ela surgiu do fogo

acendendo um cigarro

e sua maquiagem negra escorria pelo rosto

não sabia manusear uma arma

mas atirou pela janela três vezes

E eu queria tanto que uma maldita bala me acertasse

mas no quintal eu fingi me esconder.

Eu a ofereci uma flor em forma de trégua

enquanto ela recarregava sua escopeta enferrujada

e tentava equilibrar o cigarro na boca

“Querida eu te amo, você pode me perdoar ag..”

ela atirou para cima

e caiu no chão com o impulso

eu corri atrás daquela vadia

pelos cantos da casa em chamas

ela correu para cozinha e alcançou uma faca

eu dei um passo para trás

e então um passo para frente

“me mate, se é isso que você quer”

Então ela chorou

e me abraçou

nos fizemos amor

naquela cozinha

em chamas

até nossa pele desintegrar

até deitarmos no chão de cinzas,

e ficarmos olhando para o teto

e relembrar como tudo aconteceu

e todas as mentiras foram convertidas em tesão

estava tudo bem

e o fogo já alcançava o teto

e queimava todos os anjos ao redor

mas o fogo nunca vai descer até o chão querida

pode ficar tranquila.

acordei

numa ambulância

com uma faca enfiada

bem acima do meu umbigo

fechei os olhos

encarei os anjos caídos do meu lado

eu amo aquela mulher

aquela

filha da puta

disgraçada