Eu olho dentro dos seus olhos sedentos

e vejo através de suas almas,

eu sinto a pulsação que vibra e faz as janelas tremerem

Eu ouço o coração bater no ritmo do Olodum

E o suor provando que esse amor é realmente líquido,

que vai escorrer pela minha porta

e deixar uma marca no meu lençol antes de eu saber seu nome

Um homem não precisa de mais do que isso, eu digo.

Pego uma cerveja que não sei se posso chamar de minha

não tão gelada, um pouco amarga

a unica que me restou.

Sento no sofá,

o mais caro que poderia existir,

mas ainda desconfortável

E na minha TV com todos os 1762 canais em Full HD

nenhum tem a audácia de me entreter

Vou passando

Pulando de um para o outro

Às vezes dou uma leve risada

Os atores estão ficando cada vez melhores, eu penso.

Acabou a cerveja

Durmo no sofá

Acordo em uma festa

E depois em outra

Acordo em uma cama

E depois em outra

Tento decifrar o que há naqueles olhos,

o que as trouxe até aqui,

se os opostos se atraem mesmo

alguém deve ter algo a oferecer não é mesmo?

Não.

Visto o que consegui achar das minhas roupas.

Vou para casa,

deve ter algo interessante passando naquela TV uma hora dessas.

Sento no sofá,

vou passando de um canal para o outro,

paro em um programa de médicos,

obviamente feito para adolescentes que acham que vão ser médicos.

Uma equipe de 6 doutores que se juntam para salvar um senhor de 70 anos,

eu gosto desse tipo de ilusão que Hollywood traz

Acordei

Sem nenhum olho para decifrar,

com as janelas imóveis,

lençóis secos,

aparentemente na minha cama.

A anatomia cinza americana é uma glória

eu me jogo nela

como um viciado se jogaria

num boneco de neve feito de cocaína

Porque essa porra funciona,

em todas as temporadas

quando eu quero trocar de canal

eles quase matam o desgraçado do idoso

e eu fico “oh meu deus, não”

e mais algumas horas se passam

é tudo o que eu preciso